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quinta-feira, 17 de julho de 2014

"JESUS DE NAZARÉ" de José Comblin

"Pretendemos meditar sobre a vida humana, simplesmente humana, de Jesus Cristo. Queremos abordar esse Jesus de Nazaré tal como os discípulos o conheceram e o compreenderam – ou não o compreenderam – quando caminhavam com ele pelas estradas da Galileia, percorrendo os povoados de Israel, quando ainda não o conheciam como Senhor e Filho de Deus. Desejamos ver esse Jesus tal como ele aparecia quando ainda não manifestava sua relação pessoal com Deus; quando, aos olhos dos discípulos, ele ainda era um homem, simplesmente homem."

Essa é a proposta de José Comblin (1923-2011) em sua obra Jesus de Nazaré (Paulus, 2010) que é a contribuição do padre belga e teólogo da libertação ao tema "Jesus Histórico". A obra divide-se em seis temas: No primeiro (O Homem) trata da família, formação e relacionamentos sociais Jesus. No segundo (Livre), trata do singular agir independente de Jesus que se faz servo de todos sem ser propriedade de ninguém. No terceiro (Irmão), Comblin trata do relacionamento de Jesus com os pecadores, estrangeiros, crianças, multidões, etc. Em O Pai (o quarto) trata do peculiar relacionamento de Jesus com Deus. O reino de Deus , tema central da mensagem de Cristo, é quinto tema (A Esperança). A obra finaliza como sexto tema (A Missão) que fala da missão de Jesus e a da Igreja que se lhe seguiu.

O livro é pequeno (120 pp.), mas traz um texto objetivo, direto, mas profundo da singularidade do homem Jesus de Nazaré. Embora leve em conta a pesquisa histórica sobre Jesus, Comblin não se perde em meandros acadêmicos e traz um inquieto e inquietante Jesus, a partir dos Evangelhos, que se constitui um desafio não de fé, mas sobretudo de vida.

Jesus de Nazaré

"FORÇA ÉTICA E ESPIRITUAL DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NO CONTEXTO ATUAL DA GLOBALIZAÇÃO"

Força Ética e Espiritual da Teologia da Libertação No Contexto Atual da Globalização (Paulinas, 2006) do teólogo católico Pablo Richard (1936 - ) traz um resumo da história da Teologia da Libertação, suas referências, seus temas, dilemas e propostas dentro do contexto de globalização. Reforça a tradicional opção preferencial pelos pobres e excluídos, propõe a reforma da Igreja Católica e do Cristianismo em geral a partir do Terceiro Mundo e denuncia o neoliberalismo globalizante como um grande inimigo da fé. 

O livro se divide em três partes. Na primeira apresenta um um resumo da história da Teologia da Libertação ressaltando como marcos históricos e teóricos o Concílio Vaticano II (1962-1965) e as Conferências do Episcopado Latino-americano de Puebla (1968) e Medellín (1979). Esses eventos católicos, que tiveram reflexos no mundo protestante, esboçaram um pensar e um agir em favor dos pobres sem abrir mão da fé, da espiritualidade da evangelização. 

Na segunda parte, a perspectiva de um outro mundo em que seja possível que se estabeleçam os desafios atuais da Teologia da Libertação como a opção preferencial pelos pobres, a reforma estrutural e hierárquica da Igreja Católica visando que esta seja mais humana e libertadora, etc. 

Na terceira parte, com base no Jesus "histórico" e na expansão inicial da Igreja tal como é narrada no Novo Testamento,apontam-se os fundamentos para uma reconstrução do Cristianismo. 

Em muitas passagens, todavia, o texto é ingênuo e utópico, só condena o capitalismo privado sem denunciar a opressão do capitalismo de Estado (comunismo) e relativiza a pessoa de Jesus Cristo no diálogo interreligioso sobre o qual afirma que a pessoa humana deve ser o centro desse diálogo. 

Não é preciso muito esforço para ver que autor quer pautar a vida, a teologia e a organização da Igreja Católica e do Cristianismo em geral pelas demandas "politicamente corretas" da chamada Esquerda. Essa agenda deve sim ser considerada e deve ser visto que os pobres, excluídos, marginalizados, etc. não são propriedades de uma ideologia nem de uma teologia. Levada às últimas consequências, a tese do livro leva-nos a pensar que o Cristianismo deveria ser mais uma ONG, só  que religiosa, sem pretensões de crer numa revelação cabal de Deus em Jesus Cristo que serve de critério para avaliar qualquer doutrina e prática teológica, jurídica, política e ideológica. A singularidade de Cristo e suas consequências sempre será um tropeço para agradar um mundo plural. E ela também sempre será desafiará os cristãos a viverem à altura dessa singularidade, não só defendendo uma ortodoxia teológica, mas vivendo o amor ao próximo, ao marginalizado, ao excluído, lutando por cidadania, denunciando os pecados sociais, etc.

A leitura, não obstante, é agradável e estimula a reflexão e a ação. O autor tem um histórico de engajamento com o que defende não sendo mero teórico acadêmico. Isso dá muita força e vivacidade a seu texto. Ainda que se cale sobre a opressão socialista (o autor militou no movimento chileno Cristãos Pelo Socialismo), a conclamação que Richard faz para se lutar com fé e espiritualidade por um mundo melhor é válida e necessária. O grande aprendizado está em que o maior desafio da fé cristã não é o ateísmo, mas a idolatria do mundo mercadológico e globalizado que diviniza coisas e coisifica o ser humano: "A espiritualidade da libertação não se defronta com o ateísmo, mas, fundamentalmente, com a idolatria" do lucro, do poder globalizado e do mercado."